LEGENDA Bora Ler: A Lança do Deserto - Peter V. Brett


O sol está se pondo sobre a humanidade. A noite agora pertence aos demônios vorazes, que se alimentam de uma população cada vez menor, obrigada a se esconder atrás de símbolos esquecidos de poder. As lendas falam de um Salvador: um general que certa vez reuniu toda a humanidade e derrotou os demônios. Mas seria o retorno do Salvador apenas mais um mito? Ahmann Jadir é o líder das tribos reunidas do deserto. Sua lança e sua coroa ancestrais são os argumentos de que precisa para proclamar a si mesmo Shar’Dama Ka, o Salvador. Os habitantes do norte discordam. Para eles, o Salvador não é outro senão o Protegido. 
Mesmo não havendo spoilers de A Lança do Deserto, a análise pode ter pequenos (ou não) spoilers de O Protegido, por se tratar do segundo livro da série Ciclo das Trevas ^^

Vale a pena ou a galinha inteira? 

O segundo volume da série Ciclo das Trevas do autor americano Peter V. Brett foi lançado recentemente no Brasil pela editora DarkSide Books e caso você tenha se apegado a Arlen, Leesha e Rojen em O Protegido, primeiro volume da série, você pode sentir um desconforto ao começar a ler A Lança do Deserto.

Tudo por que nesse volume, o autor irá nos levar para um lugar distante da Clareira do Lenhador, localidade que já era bem conhecida para os leitores do Ciclo das Trevas. Somos transportados até o Forte Krasia e somos apresentados a um novo núcleo de personagens, alguns já conhecidos, como Ahmann Jadir, antigo amigo de Arlen.

Enquanto que no primeiro tomo, Peter se preocupou em nos apresentar o Protegido, neste segundo ele se preocupa em nos apresentar o Salvador e as consequências da ascensão de Jadir como Shar'Dama Ka.

A trama também não irá seguir de forma linear. Entre os capítulos, o autor irá alternar com acontecimentos no presente e no passado, da infância de Jardir até sua ascensão como Salvador. O leitor pode estranhar e muito essa mudança de núcleos de personagens, como eu já havia falado, porém, foi uma boa sacada do autor. 

A cultura e o idioma de Krasia são bem diferentes dos utilizados nas Terras Verdes, então, conhecermos a vida de Jardir, desde sua infância servirá para nos familiarizarmos com esses novos termos. Termos esses que não são fáceis de recordar. Durante minha leitura precisei fazer um glossário para facilitar o entendimento da trama e assim aproveitar ao máximo o que o livro ofereceria. 

Obviamente, como foi visto no primeiro volume, haverá um momento em que os destinos de Jardir e Arlen se cruzam em Krasia. Só que dessa vez veremos a história do início e fim da amizade entre os dois pelo ponto de vista do krasiano e entenderemos ao certo o que aconteceu. Essa parte é bem interessante, visto que em O Protegido, o leitor pega antipatia por Jardir, porém, entendendo a cultura do país e conhecer o outro lado da história, seu duro treinamento para se tornar dal'Sharum e sua conturbada amizade com o khaffit Abban, dá uma nova luz aos acontecimentos.

Acompanharemos todo esse processo de crescimento do personagem Jardir até a metade do livro, mais ou menos. Depois, nosso velho trio de amigos retorna para as páginas do Ciclo das Trevas. No entanto, uma outra personagem, também já vista em O Protegido, se tornará um núcleo muito importante nesse segundo volume.

Renna que fora prometida a Arlen quando eram crianças, se vê em sérias complicações com a dura convivência com seu pai e o seu destino está prestes a mudar totalmente. Nesse núcleo o autor não terá pena do leitor ou da personagem, fornecendo momentos de angústia para os leitores.

Enquanto Leesha, com o auxílio de Rojer e vez ou outra Arlen, reergue a Clareira do Lenhador após os conflitos sofridos no final do primeiro tomo, Jardir ruma para as Terras Verdes para conquistar e unificar todos os povos, trilhando um caminho de destruição e caos e em meio a todos esses conflitos, os terraítas continuam a surgir após o pôr do sol.
Somos apresentados a novos terraítas, sendo dois deles extremamente poderosos. O leitor fica desesperado frente a esses novos personagens quase titânicos.

A edição que conta com mais de 700 páginas, pude observar três problemas de revisão, nos últimos capítulos, como por exemplo, a utilização de "Protegeu" ao invés de "Protegido", porém, não é nada que influa de modo prejudicial à leitura como um todo. A belíssima edição nacional, segue o mesmo padrão do primeiro livro: capa dura, com folha-guarda envernizada, fita marca página, mapa para o leitor se situar e ilustrações entre uma parte e outra, além das proteções sempre acima de um novo capítulo.

Peter V. Brett mandou super bem ao escrever esse volume por que expande a horizontes incríveis todo esse universo que ele criou para o Ciclo das Trevas, tanto a nível de localidade, quanto político-cultural.

Por fim, ainda bato na tecla que eu havia falado lá na análise de O Protegido, de que Ciclo das Trevas é uma das melhores fantasias que eu li nos últimos tempos e entrou fácil, fácil para a lista de livros favoritos da vida. Mesmo que o leitor se sinta desmotivado pela mudança de núcleo na primeira parte do livro, ele será recompensado com boas lutas e um enredo fantástico e envolvente com personagens bem construídos e humanos. Não preciso nem dizer que vale um galinheiro inteiro não é mesmo? Abraços e até a próxima análise pessoal ^^
* PS: Segue abaixo um pequeno glossário de Krasia para facilitar a leitura:

Ala: Mundo perfeito criado por Everam e corrompido por Nie.
Alagai: Palavra krasiana para terraítas (demônios).
Alagai'sharak: Guerra santa contra os terraítas.
Andrah: ditador secular e religioso de Krasia .
Bido: Tanga utilizada pelos meninos da Nie’Sharum após terem sido retirados de suas mães.
Chin: covardes, infiéis.
Dal'Sharum: casta guerreira de Krasia que inclui a grande maioria dos homens. São divididos em tribos controlados pelo damaji, e unidades menores deve responder perante um dama e um kai'Sharum. Se vestem de vestes pretas com um turbante negro e véu. Todos são treinados em combate corpo-a-corpo (sharusahk), bem como formações de combate e escudo lança .
Dama: São os homens sagrados de Krasia. São religiosos e líderes seculares. Usam vestes brancas e não carregam armas. Todos dama são mestres da sharusahk.
Dama’ting: Mulheres sagradas de Krasia. Atuam como curandeiras e parteiras. Preveem o futuro e datam a hora da morte. Prejudicar uma dama’ting de qualquer forma é punível com a morte.
Damaji: Os doze damaji são os líderes religiosos e seculares de suas tribos individuais, e servem ao Andrah como ministros e assessores.
Jiwah'Sharum: Esposas de guerreiros. São mulheres adquiridas para o grande harém do sharum durante seus anos férteis. É considerada uma grande honra servir. Todos os guerreiros têm acesso a jiwah'Sharum de sua tribo e espera-se mantê-las continuamente grávidas, acrescentando guerreiros para a tribo.
Kai'Sharum: Capitães militares de Krasia. Recebem treinamento especial em Sharik Hora e lideram unidades individuais em alagai'sharak. O número de kai'Sharum em uma tribo depende do seu número de guerreiros. Algumas tribos têm muitos, outras apenas um. Se vestem de negro, mas seus véus da noite são branco.
Khaffit: Ocupa um ofício ao invés de se tornar guerreiro ou religioso. Menor casta masculina de Krasia.
Nie’Sharum: Não guerreiros. Meninos que foram para os campos de treinamento para serem julgados e definir seu caminho para dal’Sharum, dama ou khaffit.
Shar'Dama Ka: O Salvador.
Sharik Hora: Templo de Ossos de Krasia, feito com os ossos dos guerreiros caídos. Ter seus ossos adicionados ao templo é a maior honra que um guerreiro pode atingir.


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