LEGENDA Bora Ler: A Casa dos Espíritos - Isabel Allende


Acompanhamos a saga da turbulenta e numerosa família Trueba, do Chile, com o seu patriarca angustiado e suas mulheres clarividentes. Trata-se de uma narrativa vertiginosa que se alimenta de si mesma e parece tender ao infinito. É no seu desfecho que se alcança o efeito trágico da obra cujo limite não é o esgotamento das narrativas, mas um golpe de Estado que metamorfoseia as narrativas em sangue nas sarjetas e as palavras em silêncio. Num panorama da história chilena que vai de 1905 a 1975, desfilam personagens como Esteban Trueba, latifundiário e senador; Clara, sua mulher clarividente e Alba, sua neta, jovem, socialista e, portanto adversária do patriarca e de seus cúmplices. 
Vale a pena ou a galinha inteira? 

Como primeiro trabalho da autora chilena Isabel Allende que utilizou parte de sua biografia para romantizar A Casa dos Espíritos tornando a obra uma das mais importantes da literatura sul-americana.

Na trama, iremos acompanhar três gerações da família Del Valle, na verdade, três gerações de mulheres dessa família. Mesmo não fazendo menções em momento algum de datas ou do país em que a história se passa, o leitor por meio de referências consegue perceber que os eventos ocorrem entre meados de 1905 e 1970 no Chile.

A narrativa irá seguir duas vertentes: a primeira é a mágica, a dos acontecimentos surreais e fantasiosos; a segunda que será muito mais evidente da metade do livro para o final, irá se ater aos fatos ocorridos no país naquele período.

A primeira vertente da história será focada em Clara del Valle, uma moça com habilidades de clarividência e poderes psíquicos. Além dessas pecularidades que tornam Clara famosa na região, ela também pode conversar com espíritos. Na primeira fase da história então, iremos acompanhar Clara desde sua infância até a idade adulta e seu envolvimento com Esteban Trueba.

Esteban era um homem simples que apaixonado por Rosa (irmã de Clara) ruma para minas a fim de tentar conseguir encontrar ouro e desse modo, voltar para se casar com Rosa, porém, a moça morre envenenada durante esse período. Clara, que previra a morte da irmã, fica traumatizada e decide passar um tempo indeterminado sem pronunciar uma única palavra e só volta a falar quando prever que irá se casar com Esteban.

A segunda geração que iremos acompanhar é de Blanca, filha de Esteban e Clara e seu envolvimento com Pedro Terceiro Garcia, um jovem com pensamentos revolucionários, fato esse que desperta a ira de Esteban, que não aprova o relacionamento.

Logo então, temos a terceira geração que é focada em Alba, filha de Blanca e é nesse ponto que os acontecimentos fantasiosos dão lugar aos fatos baseados no golpe militar pelo qual o Chile passou no início da década de 70 fazendo com que o livro adquira um caráter bem mais adulto e importante historicamente.

Esteban por ser um latifundiário, é totalmente contra a implementação do socialismo e vê o golpe militar como uma solução política ao país, porém, à medida que os acontecimentos vão se desenvolvendo o personagem irá se valer do velho ditado: "cuidado com o que desejas". Sua personalidade também entra muito em contraste com as personalidades das três mulheres da família, por ser um homem com os pés no chão e que não acredita em nada de sobrenatural, para ele tudo aquilo que a esposa, a filha e a neta acreditam é baboseira pura.

A história é narrada, ora em terceira pessoa por um narrador desconhecido (até o final do livro), ora pelo próprio Esteban. É um amontoado de memórias que vão se entrelaçando para construir o retrato dessa família ao longo dos anos.

Apesar do nome, o livro não é uma obra espírita e tende muito mais a ser um livro político, motivo esse que o levou a ser censurado em alguns países. Mesmo que a autora não cite o país e nem os anos em que a história transcorra, ela relata as principais mudanças ocasionadas pela implementação de uma ditadura militar após o golpe de Estado. 

A autora também cria personagens secundários que tem relação indireta com a família Trueba que vão fornecer momentos de auxílio e de suplício aos membros da família, o que torna a narrativa muito interessante, pois esses personagens são frutos de ações realizadas no passado pelo próprio Esteban. Genial essa sacada de "colher o que plantamos" (hoje estou cheio dos ditados).

Apesar do livro ser excelente, ele não entra para os meus favoritos por conta de detalhes bobos, como por exemplo, o contraste entre a quantidade de páginas e a falta de ação na história. Sem levar em consideração os últimos capítulos, a história é lenta, mas vejam bem: é lenta, porém, não monótona. Também acrescento os capítulos grandes. Capítulos grandes tendem a me deixar desconfortável na leitura.

Por fim, A Casa dos Espíritos é um dos clássicos da literatura que merece e muito ser lido, por fornecer aos seus leitores uma escrita fluída, personagens palpáveis, além do fator histórico que pesa e muito na importância da obra, ainda mais para nós brasileiros que também temos em nossa história um período de ditadura militar. Recomendadíssimo. 


2 comentários:

  1. Ah, esse livro. Fiquei com vontade de ler de novo, depois da sua resenha.
    Isabel Allende é uma das minhas escritoras favoritas e essa obra tem todos os ingredientes para prender o leitor da primeira à última página. Tem drama, tem História, tem política e tem forte crítica social.

    Parabéns pelo texto.

    Bjs ;)

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    1. Olá Ana tudo bom? Obrigado pelo elogio ^^

      Essa foi a minha primeira viagem nessa escrita fantástica da Isabel. Sei que entre os inúmeros projetos literários que me propus a realizar pra vida, há outros livros dela (Daughter of Fortune e Eva Luna) então tão logo (espero) vou visitar a escrita dela novamente rsrsrs.

      Abraços!!!

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