LEGENDA Bora Ler: Dom Casmurro - Machado de Assis


Bentinho e Capitu são criados juntos e se apaixonam na adolescência, mas a mãe dele, por força de uma promessa, decide enviá-lo ao seminário para que se torne padre. Lá o garoto conhece Escobar, de quem fica amigo íntimo. Algum tempo depois, tanto um, como o outro, deixam a vida eclesiástica e se casam: Escobar com Sancha, e Bentinho com Capitu. Os dois casais vivem tranquilamente até quando Bentinho começa a desconfiar da fidelidade de sua esposa.
Vale a pena ou a galinha inteira? 

Olá pessoal tudo bom? Espero que sim. O blog tem andado um tanto quanto que jogado às moscas por conta dos compromissos da faculdade que estão batendo à porta quase todo dia, consumindo horas e horas do tempo, mas mesmo com compromissos ou não, não podia deixar de postar para o Desafio Literário do Skoob, ainda mais com um tema tão cheio de valor quanto o do mês de maio, onde teríamos que ler um livro que tenha sido escrito em língua portuguesa (Brasil, Portugal, Moçambique, etc). Desde a oficialização dos temas, o único livro que me veio à mente foi Dom Casmurro e agora conto procês o meu caso de amor - ódio - sublime amor pela obra.

Para começar, tenho uma pergunta tão simples e tão clichê para todos que já leram Dom Casmurro que chega a ser banal fazê-la, mas...: Como uma obra publicada há mais de cem anos planta uma dúvida em seus leitores capaz de gerar gera teorias e mais teorias, trabalhos acadêmicos e até psicológicos e ainda assim continuar sem resposta? E a dúvida mais famosa da literatura brasileira é: Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Particularmente sou do "Team Capitu não Traiu" e daqui a pouco conto (sem spoilers) por que participo desse time.

O livro é escrito pelo próprio Bentinho que no período em que resolve nos contar sua história já é um senhor de idade, logo, toda a visão que teremos dos personagens se dará pela do próprio senhor/rapaz e isso dá uma certa peculiaridade à obra.

Bentinho possui uma ironia enorme, tanto em criticar os outros, quanto criticar a si mesmo, mas como Machado tinha a tendência a criticar a sociedade da época sempre de uma forma muito polida, essa característica é inserida no personagem, o que torna as ironias de Bentinho bem sutis. A obra que posso classificá-la em três diferenciais já tem o seu primeiro com essa característica.

Num segundo diferencial, estão os capítulos curtos. Dom Casmurro tem capítulos minúsculos. Esse fator acaba acelerando a leitura, mesmo que o leitor não perceba. Quando pegamos um livro com capítulos de 30-40 páginas (sofrendo com Paradiso do Lezama Lima) a leitura fica arrastada, já que grande maioria dos leitores gostam de terminar o capítulo quando resolvem parar a leitura. 

O terceiro diferencial não podia ser senão a escrita do autor. O caso de um amor que surgiu desde a infância, mas que o garoto tem que ser enviado a um seminário devido a promessa de sua mãe, mas que consegue se casar com sua amada no decorrer da trama. Isso é ou não é uma história comum, quiçá pra lá de clichê? Poderia até ser, caso não tivesse sido escrita pelo genioso Machado de Assis.  A forma com que o autor amarra a história é de uma grandiosidade que você consegue ficar de boca aberta ao ler.

Durante a história teremos várias menções a Otelo de Shakespeare, já que Bentinho é leitor da obra do autor britânico (e Machado também) e essa influência irá corroborar e muito com as desconfianças tidas pelo rapaz. Por sorte, eu já havia lido Otelo em 2014, então, todas as referências que o personagem fazia eu conseguia associar. É uma leitura curta que vale como um complemento para Dom Casmurro para percebermos o grau de loucura que passa pela cabeça do personagem de Machado.

Mas quem é essa Capitu que todos falam? Capitu pode ser considerada o cerne das personagens femininas brasileiras da época. Já percebemos que desde cedo ela é uma personagem com muita personalidade, característica esta que raramente percebemos nas outras mulheres dos romances desse período e mesmo àquelas que apresentam um pouco dessa personalidade, posso julgar uma certa influência da nossa querida Capitolina. Mas afinal, por que Capitu é uma mulher que desde a adolescência manifesta esse poderio todo? O culpado é o Bentinho. Como o livro é em primeira pessoa e todas as referências que temos dos personagens vem dele e ele é apaixonado por ela, logo, ela será muito tudo.

Mas mesmo com todas essas características que falei que tornam a obra esplêndida, por que ainda assim, Dom Casmurro é visto com olhares tortos pelos leitores? Como possível professor, infelizmente tenho que dizer que é por conta dos ensinos nas escolhas e/ou da didática de alguns professores (este último como foi no meu caso). Quando o aluno, leitor ou não, vê um livro considerado clássico, já fica desestimulado, se o clássico for brasileiro então... ai que a porca torce o rabo mesmo. Vamos combinar que Dom Casmurro já assusta pelo título, afinal, NINGUÉM que não tenha lido o livro ou ouvido falar da história sabe o que é casmurro o que sugere linguagem difícil e o bendito do Machado ainda me coloca um Dom na frente, que é um tratamento mais formal, ai que lascou mesmo, o aluno já entende: livro chato


Somado a esses fatores, temos a leitura por obrigação. Todo mundo sabe que quando precisamos ler algo obrigado, leremos? Sim, mas com má vontade. Aconteceu comigo, aconteceu ou irá acontecer com vocês, não tem como fugir disso, afinal, vestibulares estão ai e a chance das listas de livros obrigatórios agradarem 100% o candidato é ínfima.  


Mas faço meu humilde apelo para que vocês encarem Dom Casmurro. Mesmo que a leitura empaque por conta do vocabulário ou por outros pontos, invistam na obra. Até por que, Machado que conversa com o leitor (você ai que lê Desventuras em Série...ai ôh), possibilita que o mesmo elabore diversas teorias sobre se Capitu traiu ou não traiu Bentinho desde o início da história, mesmo antes da menina aparecer, veja bem!!!


Como eu disse, sou do "Team Capitu não Traiu" por inúmeros pontos que fui resgatando ao longo da leitura. Entre os pontos sem spoilers estão a própria obra de Otelo e uma passagem de Bentinho à casa de Sancha, numa conversa que o pai da garota tem com o rapaz. Nessa conversa, o pai dela (que esqueci o nome) fornece uma informação valiosíssima que irá fundamentar o tão paranoico estava Bentinho pela forma em que começou a desconfiar de Capitu. Uma outra característica que percebi e agora não sei se foi ou não paranoia minha, era que entre Bentinho e Escobar havia um algo a mais que amizade, em certo momento a própria Capitu pergunta: "Quem era aquele que você se despediu com tanto afeto?" a cena realmente dá margens a interpretações ambíguas, o que faz com que o ciúme que ele teria de Capitu fosse um ciúme sobre Escobar, vai saber!!!


Enfim, espero encarecidamente que vocês leem algum dia Dom Casmurro e caso já tenham lido, relatem em qual time vocês estão, afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Talvez nem o próprio Machado tinha a resposta e essa seja a maior dúvida da literatura brasileira, assim como, "Ser ou não ser?" é da literatura inglesa.


2 comentários:

  1. Olá
    eu não sou muito fã de clássicos, mas eu gosto um pouco do Machado rsrs, é uma das melhores escritas daquele tempo (eu acho) rsrs e sem duvidas essas edições de clássicos da editora Atica é a minha favorita, vc já viu a edição dessa serie de A Moreninha?? é muito top ela
    Abçs
    Passa Lá No Meu Blog- htto://ospapa-livros.blogspot.com.br/

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    1. Olá Netinho tudo bom?
      Pois é cara, também considero o Machado o melhor em matéria de escrita daquela época, mas só das pessoas ouvirem o nome Machado de Assis já logo tremem na base rsrs. Ainda não vi essa edição de A Moreninha não, só mesmo essa do Dom, bem que as editoras poderiam relançar os clássicos brasileiros em super edições, ai garanto que todo mundo iria a animar a comprar e a conhecer :)
      Abraços!!!

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